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Luísa Jacinto

Portugal

ferro, pintura, quinadeira

AiR 351

Luísa Jacinto

ciclo programático 01 / Véu-pedra

Luísa Jacinto vive e trabalha em Lisboa. A sua prática artística lida com os protocolos da imagem, a fragmentação e simulação narrativas, o excesso de evidência e o obscurecimento.
No seu percurso, são de especial relevo as exposição individuais A ideia de voltar, Galeria Quadrado Azul, Lisboa, Portugal, 2022; Véu-Pedra, Artworks, Lisboa, Portugal, 2019; We had the experience but missed the meaning, galería silvestre, Madrid, Espanha, curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, 2018; Basta um só dia, curadoria de João Miguel Fernandes Jorge, Museu Carlos Machado, Açores, Portugal, 2012. Das suas exposições colectivas, destacam-se É o cenário que se move (Luísa Jacinto e Isa Melsheimer) Brotéria, Lisboa, Portugal, 2022; Pintura, Campo de Observação, curadoria de João Pinharanda, Cristina Guerra Contemporary Art, Lisboa, Portugal, 2021; PADA na ASC Gallery, Londres, Reino Unido, 2019; WAIT, curadoria de Orlando Franco, Museu Coleção Berardo, Lisboa, Portugal, 2019;  Saudade - Unmemorable Place in Time, comissariada por Yuko Hasegawa, Fosun Foundation, Xangai, China e Museu Coleção Berardo, Lisboa, Portugal, 2018; Pontos Colaterais, Coleção de Arte Arquipélago, uma seleção, comisssariada por João Silvério, Arquipélago, S. Miguel, Portugal, 2015.

“Houve um momento”, conta Luísa Jacinto “em que entendi que não queria fazer apenas belas superfícies, mas enfrentar a vertigem, o acidente. É como um jogo de distanciamento onde procuro não dar tudo à primeira. Existe um certo risco, mas também um certo cálculo”.

Estamos no pequeno atelier da artista, no centro de Lisboa. Faz sol,  é Outubro e amontoam-se os novos trabalhos que irão entrar na sua próxima exposição. As chapas metálicas parecem estar numa espécie de limbo, entre o improviso e o acabamento, alguma coisa que está a meio caminho de outra, e que mais tarde Luísa Jacinto sintetizará com a expressão “calling material to life”. Um diálogo entre espaço, percepção e pintura, é o que a artista persegue. A frente e o verso da representação interessam-lhe de igual maneira.
O título que escolheu é apropriadíssimo! Véu-pedra, assim mesmo com hífen, é um jogo de palavras que se friccionam, enigma dito pela boca de uma esfinge. O que importa não é exactamente ler-se aqui se o véu é de pedra, se a pedra é como um véu que esconde. Importa só a imagem, a evanescência espessa de uma metáfora. É também um título que sublinha a dimensão cognitiva dos materiais, assumindo cor e textura modos independentes de existência que subtraem o gesto da artista.
O facto de Luísa Jacinto projetar toda a exposição numa ambivalência, que o título anuncia, faz pleno sentido, porque é a própria prática da pintura que procura tensionar. As chapas de metal foram trabalhadas como telas: primeiramente “agredidas”, depois pintadas, e a seguir endireitadas por potentes calandras e máquinas de quinagem para serem base de sucessivas intervenções pictóricas (“É muita tortura para uma chapa” dirá em entrevista). Já aquilo a que chamamos “pintura” é, em rigor, um labor alquímico de pigmentos (cádmios, iridiscências, castanhos, cobaltos), algo entre pulverização e decantação.
Estamos, assim, em pleno território da pintura contemporânea, onde a “velha” maquinaria de representação do mundo já não se vale a si mesma, ou, como escreve Isabelle Graw, “onde a pintura abandona a sua antiga morada - que foi a imagem na tela -, passando a ser omnipresente em outras formas de arte”.
Intrigam-me os desdobramentos futuros que a exposição Véu-pedra propõe. A dada altura da nossa conversa desviamos a atenção para os quadrados muito brancos, semelhantes a autocolantes de vinil, que Luísa Jacinto pintou em cima de algumas chapas de metal. Ficamos a contemplá-los como figuras autónomas e intrigantes… e posso olhar a partir do olhar de João Miguel Fernandes Jorge, autor de um belo texto sobre a artista.
Assim, leio a arte como rede interminável de sentidos, pondo em diálogo diferentes épocas históricas. De facto, vem-me à mente o caracol da Anunciação de Francesco del Cossa (c. 1470-72), que entra depois num memorável texto de Louis Marin. Estranha associação, mas ao mesmo tempo evidente, porque tal como o molusco gastrópode no quadro do pintor de Ferrara, também estes pequenos quadrados brancos são feitos para colocar em causa o estatuto da representação. Pintados sobre o quadro, mas não dentro do quadro, parecem estar mais próximos de nós e por isso menos integrados no interior da pintura. Acrescentaria ainda que desfazem a nossa credulidade (“it´s all folks”), evitando-se assim o gesto mimético fundamental.
O pensamento de Luísa Jacinto convida-nos a interpretações instigantes e talvez a artista não concorde comigo, mas finalizaria sublinhando que os (in)significantes quadrados brancos trazem uma abertura. Apontam um caminho. Pintura que se abre a novos meios? Auto-referencialidade? Sim, se nisso formos capazes de ver os modos como a pintura se debruça sobre o seu próprio discurso. No caso de Luísa Jacinto sempre um espaço entre ambivalências, ocultações e poesia.

Marta Mestre

Créditos

parceiro Air351
recursos_ ferro, pintura, quinadeira
formato: residência ciclo programático 01fotografia & vídeo: Bruno Lança